COLUNA TEXTOS & CONTEXTOS:
A LINGUAGEM, A MÍDIA E OS GOVERNOS
Uma questão que ainda está em baila é aquela envolvendo a revista Veja e a Polícia Federal. O caso, pensamos, dispensa esclarecimentos. Mas não prescinde de comentários sobre a necessária, porém em regra atritosa, relação entre a mídia e os governos (especialmente o atual), em uma perspectiva sempre da linguagem.
Acompanhando a cobertura do caso pelos principais meios comunicativos, houve um tanto de excesso, até onde a vista alcança. De um lado, temos a PF, dentre tantas qualidades, também conhecida pela pirotecnia que lhe é própria em inúmeras ações policiais. Podemos citar, a título de ilustração, aquelas situações em que escritórios advocatícios são arbitrariamente invadidos em busca de documentos sigilosos etc. Doutra banda, não é menos verdade que certos meios de comunicação e muitos jornalistas, não raro, se valem de fatos isolados – ou de contextos inacabados - para generalizarem determinada conduta, para insinuarem precipitadamente o cometimento de (supostas) ilegalidades, para melindrarem, enfim.
Não estamos a afirmar que houve ou não ilegalidades no procedimento com os três repórteres de Veja. Para tanto, precisaríamos de uma séria investigação. A concluir pelas palavras da procuradora da República presente no depoimento, poder-se-ia falar, no máximo, em “pequenas irregularidades”. Seja como for, o que advogamos aqui é que o leitor deve ter uma postura crítica diante daquilo que se lhe põe, não fazendo juízos de valor açodados. Isso porque a “realidade” está sitiada pelas palavras, e há quem defenda (com ponderações, incluo-me) que inexiste “o” fato, que ele não passaria de um conjunto de articulações lingüísticas, motivo pelo qual, em última instância, seria mais correto falar em versões sobre ele. Tais versões, todavia, podem ser manipuláveis ao sabor do engenho e da destreza de quem melhor sabe usar a linguagem em seu favor. Daí a necessidade de nos precavermos das tentações do relativismo. Em pequenas doses, ele é o melhor remédio contra alguns males do dogmatismo; entretanto, se nos excedermos, corremos o risco de impossibilitar o estabelecimento de uma hierarquia de valores. Sempre salutar, por isso, a leitura crítica – de olhos bem abertos – do que Lênin chamou de “realidade objetiva”.
Para os antigos, a palavra manifestava a essência das coisas, criando realidades novas até! Donde a razão pela qual Cristo é a palavra viva de Deus, sendo, consoante São João, em seu Evangelho, tudo feito por Ele e através Dele. O valor da palavra fazia-se, portanto, fundante, de tal modo que uma das principais incumbências de Deus ao ser humano, no livro do Gênesis, foi a de dar nomes aos seres terrestres. Com os aprofundamentos dos estudos da filosofia da linguagem, ficou ainda mais leve esta assertiva, sem medo de radicalizar: tudo é linguagem! Não há nada que não passe pelo seu plano. A linguagem, segundo o filósofo alemão Martin Heidegger, é a morada do ser. E o ser só se dá nela ou por meio dela. A elasticidade da linguagem para manipular o real se limita aos sujeitos falantes: aqueles que se põem despidos na intersecção dos atos de fala. Em relação ao PT e ao governo Lula, contudo, parece que tal maleabilidade lingüística muitas vezes extrapola o que o bom senso estipularia como “razoável”. Certamente por se verem envoltos em crises éticas e em toda sorte de corrupções, antes jamais cogitáveis, sobre eles precipitam, com maior intensidade, as mais ácidas e impiedosas críticas, feitas – é verdade - por uma direita (supondo, com Bobbio, que esquerda e direita existem) que está longe de ter a mínima envergadura moral para fazê-lo.
Se não dou guarida às incoerências do PT e do governo Lula, muito menos o faço com os discursos retóricos e empolados de alas da direita e de alguns meios de comunicação sensacionalistas e hipócritas. Defendo a liberdade de imprensa, com os “limites” necessários, sobretudo neste país, tão bem definido pelo embaixador Rubens Ricúpero: “suave fracasso”. Tirem suas próprias conclusões, leitores. O escritor cearense José de Alencar já em seu tempo chamava a atenção para o julgamento da imprensa, muito mais danoso que o da Justiça. Pois nesta há normas e sanções. Li que uma relação “saudável” entre jornalistas e governantes será sempre tensa. Não sei se “tensa” seria o melhor adjetivo; prefiro “apartidária”, “independente”, tanto quanto possível, claro. Em muitos momentos, como o atual, palavrórios substituem o bom senso; e, nessa seara de relações arrogantes, mascaradas, oportunistas, de conveniência e de picuinhas ideológico-partidárias, quem perde somos todos nós.
Escrito por Yuri Monteiro Brandão às 21h46
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