NO EDITORIAL DA FOLHA DE SÃO PAULO DE HOJE:
Mistério Okamotto
É INEGÁVEL que a movimentação de setores do PSDB e do PFL para obter novo depoimento de Paulo Okamotto no Congresso responde a interesses imediatos da oposição. No momento em que buscam munição para enfraquecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, os aliados de Geraldo Alckmin não perderiam a oportunidade de explorar o episódio da dívida do presidente da República com o Partido dos Trabalhadores. É igualmente verdadeiro, porém, que a questão está longe de resumir-se às querelas eleitorais. Um novo depoimento pode ajudar a esclarecer uma transação que aproxima perigosamente as finanças do presidente de movimentações suspeitas. Por vontade própria, Okamotto, presidente do Sebrae, teria quitado uma dívida de R$ 29,4 mil de Lula com o PT. O Planalto afirmou várias vezes desconhecer o pagamento. Okamotto garantiu que o fizera em segredo, esquivou-se de inquirições e conseguiu preservar seu sigilo bancário. A situação dificilmente assumiria outro rumo não fosse a entrevista concedida pelo presidente na semana passada ao "Jornal Nacional". "Quer pagar, você paga, porque eu não vou pagar, porque não devo ao PT", teria dito Lula a Okamotto, segundo afirmou aos entrevistadores. A revelação apresenta nova versão para o suposto desconhecimento do Planalto. Na pior hipótese, um novo depoimento de Okamotto contribuiria para trazer mais detalhes a respeito do diálogo -ou para desautorizar a versão do presidente. De todos os episódios da crise deflagrada no ano passado, a dívida de Lula que Okamotto declara ter pago é o que mais diretamente envolve a Presidência. Elucidar as dúvidas que pairam sobre o assunto é um imperativo. Se a disputa eleitoral favorece essa elucidação, tanto melhor.
Escrito por Yuri Monteiro Brandão às 19h22
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Caros leitores, ultimamente, tem-se falado com freqüência na necessidade de uma nova Constituição. No Brasil, muito se fala do que pouco se sabe. E tal prática vem alimentada, não raro, pela “cultura do achismo”; portanto, sem base científica. E também pelas decisões politiqueiras ocasionais, açodadas, de afogadilho. O eminente professor Lênio Streck, contudo, redigiu, em seu site (www.leniostreck.com.br), este crítico e lúcido texto (De se refletir – e agir!):
Assembléia Constituinte é golpe!
Lenio Luiz Streck
PORTO ALEGRE - Começa perigosamente a ganhar corpo a tese da convocação de uma assembléia constituinte exclusiva. A tese é encabeçada pelo presidente da OAB nacional, que _para surpresa dos republicanos_ diz que a Constituição não serve mais. Ao mesmo tempo, busca-se “requentar” uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que autoriza o Congresso de 2006 a atuar como constituinte, podendo fazer as alterações necessárias (sic) com o quorum de metade mais um (e não de 3/5 como exige a Constituição).
As teses são golpistas. Acaso vingue qualquer delas, o Brasil será alvo de chacota internacional, uma vez que será a primeira democracia que se auto-dissolve, fazendo um haraquiri institucional. Em 17 anos, passamos por crises econômicas, uma revisão constitucional, reformas constitucionais e um impeachment. E na mais plena normalidade. Como agora. E tudo isto acontece _com transmissão ao vivo_ exatamente porque existe democracia. E acontece porque a democracia brasileira funciona. E funciona exatamente porque está sustentada em regras democráticas, previstas na Constituição.
Estranhamente, no entremeio de uma crise, que não é institucional e, sim, política, alguns brasileiros querem fazer crer que a culpa da corrupção é da Constituição. É como se democracia fizesse mal a um país. Como se fosse culpa da Constituição o afloramento da corrupção em terra brasilis. Antes, pairava a honestidade; veio a Constituição e incentivou os brasileiros a se corromperem!
Deve ter sido a Constituição que facilitou a corrupção de parlamentares e o caixa dois, coisas, aliás, que nunca tinham ocorrido no país! Mutatis mutandis, é como se o Código Penal fosse o culpado pelos furtos, e assim por diante. Assim, a solução é: alteremos a Constituição e (re)instalaremos a virtude!
Ora, é preciso entender que só se pode convocar uma Constituinte na hipótese de uma ruptura institucional, que deve ser grave, com as instituições inviabilizadas, povo na rua, economia em crise, etc. Não se dissolve um regime democrático porque ser quer fazer outro (como seria esse “outro”?). A Constituição é coisa séria, fruto de uma repactuação (“we the people...”). E nela colocamos cláusulas pétreas e forma especial de elaborar emendas. Portanto, alto lá! Não se pode fazer política e vender falsas ilusões em cima daquilo que é a substância das democracias contemporâneas: o constitucionalismo.
Lendo a proposta do presidente da OAB, fico a pensar: realmente, este é um país fantástico. Desde 1.988, foram escritos _tratando da defesa da Constituição e de sua aplicação_ não menos de 2.200 livros, 1800 dissertações de mestrado e 400 teses de doutorado. Fizemos mais de 6.000 Congressos. Todos falando da Constituição.
Gastamos milhões de dólares (e euros) com bolsas de estudo, mandando estudantes brasileiros para fazer pós-graduação no exterior, para estudar a Constituição. Temos 850 faculdades de direito (não menos de 4.000 professores ensinando direito constitucional). Gastamos seguramente mais de 100 milhões de reais em bolsas de estudos _para estudar a Constituição_ nos mais de 50 programas de pós-graduação em direito no Brasil. Tudo isto, para quê? Para que o presidente da OAB e alguns parlamentares venham a defender, agora, uma tese que, além de antidemocrática, é inconstitucional.
Tão inconstitucional que o porteiro do Supremo Tribunal a barraria. E mais não precisa ser dito. Por isto, os republicanos brasileiros estão convocados para a defesa da Constituição. Se acabarmos com a Constituição _tão festejada como cidadã_ não poderemos mais falar em direito constitucional. E, no resto do mundo, quando alguém perguntar a respeito, teremos que ficar calados. Disfarçar. E passaremos a escrever livros e teses sobre as velhas Ordenações Filipinas ou sobre os decretos leis do regime militar. É o que nos restará a fazer, além de estocar comida.
Obs.: Embora este blog sempre publique os textos com as margens justificadas, para uniformizar a estética desta página, procurando torná-la mais apreciável, não foi possível fazê-lo no presente texto, porque o mesmo já se encontrava com configuração própria no site do professor Lênio Streck.
Escrito por Yuri Monteiro Brandão às 11h50
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