Blog Cultural Textos & Contextos


Prezados leitores, segue abaixo o 2º (segundo) texto da série sobre VIOLÊNCIA à qual este blog, por ora, está dedicando-se:

 

 

  VIOLÊNCIA: PREVENÇÃO OU REPRESSÃO?

 

 

 

Um dos maiores problemas da modernidade é a propagação desenfreada de toda sorte de violências e de práticas ilícitas. Mais do que qualquer outro fenômeno, a banalização da violência enraizou-se em considerável parcela da sociedade brasileira. No dizer de Drummond, “os homens não melhoraram e matam-se como percevejos”, no sentido mais abrangente do verbo matar. E em que pesem as vozes emanadas dos mais variados quadrantes do mundo e em particular deste país, aclamando por repressão intensa, por atitudes enérgicas e por vezes ditatoriais, cadeias públicas, presídios etc., indubitavelmente, a melhor e mais inteligente saída é a prevenção e a concretização das garantias constitucionais individuais e coletivas, mormente a educação.

 

De fato, a educação é de suma importância na vida de todos; constitui a base, o alicerce indispensável às elevadas aspirações, traçadas desde o início, com o ardor dos mais robustos sonhos infanto-juvenis. Não há independência de qualquer natureza na ausência da mesma. Sem o preparo ideal, tudo permanece falto de forças, de firmeza e de coragem, centelha viva que anima e vitaliza as energias. E não só a educação, mas a digna moradia, a saudável alimentação, o trabalho, o lazer e tudo mais que fora previsto na Carta da República de 1988. É dever do Estado materializar todas essas garantias, e nós, que formamos a opinião pública e devemos ser o destinatário último das ações de nossos representantes, temos de cobrar e ficar atentos, vigilantes, sempre, sobretudo em um ano eleitoral.

 

Nesse sentido, não se pode exigir aquilo que não se deu. Muitas pessoas, até mesmo intelectuais, dão vazão ao discurso da repressão, da violência para conter a violência. Que paradoxo! Diante disso, é pertinente uma intrigante indagação: se o Estado, que deveria efetivar as mínimas garantias de uma vida honrada e decorosa, não o faz, furtando-se ao seu papel com medidas paliativas e assistencialistas, como pode cobrar do cidadão um comportamento reto, em conformidade com as normas jurídicas; enfim, que não deságüe em assaltos, roubos e todas as demais práticas de crimes?

 

Faz-se mister salientar que não estamos aqui a defender ou justificar tais ilícitos, mas tão-somente trazendo à baila uma questão para que muitos não atentam (ou convenientemente esquecem), qual seja, a de que a educação, com a realização das outras garantias constitucionais, é fator fundamental para a prevenção de atitudes humanas que contrariem a ordem sócio-jurídica e a paz da coletividade. Com razão, o grande gênio das Letras, Machado de Assis, já afirmara: “O adulto se assenta no pilar da infância”. E esta há de ser bem sólida, sob os mais variegados ângulos, educando-se as crianças para não ser preciso punir os homens. E nossas crianças, especialmente, necessitam da atenção e comprometimento dos governantes, que, com raras exceções, apenas percebem e escutam os reclames populares em anos eleitorais, transformando o processo de exercício da cidadania em instrumento de satisfação de interesses pessoais e escusos.

 

De outro lado, no que diz respeito àqueles que tiveram amplo acesso à cultura, educação e outros direitos, e mesmo assim continuam a delinqüir, com a prática de crimes os mais repudiáveis, porém os menos visados pelo leigo em geral, como o desvio de verbas educacionais, alimentares, a sonegação milionária de impostos; alfim, a corrupção que mata silenciosamente milhares de pessoas, esses são os verdadeiros periculosos, bandidos e ladinos da administração pública. Para eles, a repressão se faz mais necessária, com perda de cargos, prisão, dentre outras medidas, e não para o indivíduo da periferia, envolto por circunstâncias paupérrimas, onde a esperança de dias melhores parece ser o único sentimento que alenta a sua existência.

 

No próximo texto, ainda da série sobre VIOLÊNCIA, analisaremos os problemas conjunturais e estruturais do atual sistema prisional brasileiro e, noutra oportunidade, a tão aclamada “pena de morte”. Hasta la vista!



Escrito por Yuri Monteiro Brandão às 17h56
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Caros leitores, o texto seguinte é o começo de uma série sobre VIOLÊNCIA à qual este espaço cultural se dedicará. Com isso, o propósito deste blog é fazer uma análise, ainda que breve, desse fenômeno que paulatinamente ganha mais corpo, bem como incitar o leitor a refletir, pensar sobre tal tema, indo além do senso comum, superando o óbvio e, mormente, procedendo a uma real autocrítica.

 

VIOLÊNCIA: A CULPA TAMBÉM É SUA?

 

 

O Estado de São Paulo foi marcado, nos últimos dias, por inúmeras rebeliões e audaciosos ataques à sua polícia. Em outros Estados da Federação os tumultos também ganharam corpo. Até agora, tem-se notícia de mais de 90 mortos em dezenas de iniciativas criminosas. As polícias e as comunidades desses Estados encontram-se atônitas, pasmadas, amedrontadas, revoltadas. Nos meios de comunicação, só se fala nisso; e, como de costume, de forma bem sensacionalista, hipócrita, pobre, sem identificar e denunciar as verdadeiras causas de toda essa balbúrdia social: a falta de investimento em reais políticas de educação, saúde e emprego e renda, além da ínfima distribuição de riqueza.

 

Parece não haver dúvida de que se vive hoje uma guerra civil, disfarçada sob o argumento de que essa onda de violência generalizada não passa de uma forte crise, que põe em lados opostos o Estado brasileiro e uma espécie de Estado paralelo, encabeçado pelo tráfico de drogas e armas e pelas várias organizações criminosas. No meio desse fogo cruzado, a população, mais precisamente as classes média e rica, começa a amargar as conseqüências de uma responsabilidade que jamais imputou a si própria. Essas classes pensam (ou fingem pensar) não terem nada a ver com a situação atual do país. Não se deram conta de que, no mínimo indiretamente, patrocinam a violência. E eis a sua pior (não única) face: a corrupção! E a corrupção nas urnas... Cultiva-se a “cultura do meu umbigo”, do “para mim e para minha família está bom assim”; colhe-se isso a que se está assistindo.

 

As abandonadas comunidades dos morros e favelas, que não podem consumir os produtos e serviços a toda hora veiculados na mídia como importantes ou até mesmo indispensáveis à vida de um indivíduo, sentem-se excluídas da sociedade. Como é desejo dessas classes relegadas ao léu a inclusão social, elas vão buscar através dos furtos e roubos aquilo que a própria imprensa transformou em um ideal de vida. Quando isso ocorre, ouvem-se vozes clamando por repressão ao crime, por um Estado policial ativo, armado, forte. Raramente se ouve algum sério clamor por distribuição de renda, por educação e saúde públicas de qualidade. Não se ataca a raiz dos problemas, mas seus efeitos; muitos remédios paliativos, nenhuma solução!

 

Ademais, as forças políticas de São Paulo teimam em negar que negociaram com líderes das facções criminosas, especialmente com “Marcola”. Seria uma vergonha institucional fazer acordo com bandidos, apesar de que se faz todo dia com vários meliantes de gravata que (des) governam a nação. Asseveram as autoridades que a atual relativa calmaria se deve a ações enérgicas das polícias. Pode ser uma parcial verdade. Porém não atentam para um fato: as ações delituosas são programadas, planejadas, com propósitos definidos, com início, meio e “fim”. Se a intenção do PCC foi a de chamar atenção, demonstrar sua força, bem como a fraqueza dos poderes constituídos, desmoralizando-os, tal escopo se efetivou. Logo, não há, por ora, mais motivos para continuar aterrorizando.

 

 A relativa calmaria, assim, possivelmente se deve muito mais a um acordo negado ou a um programa de 72 horas de terror já cumprido pela organização criminosa do que por reação do Estado. Admitir publicamente isso, contudo, seria um suicídio institucional.

 

Uma inegável verdade é que, enquanto cada indivíduo fechar os olhos para as classes mais pobres, excluindo-as do convívio social; enquanto os governantes e classes abastadas deste país alimentarem um discurso demagógico, populista e hipócrita e não procederem a uma razoável distribuição de renda, com pesado investimento em educação e cultura, não haverá justiça social e, portanto, a paz e a concórdia necessárias a qualquer sociedade não passarão de utopia.



Escrito por Yuri Monteiro Brandão às 15h20
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